
A questão cobra a associação clássica entre ceruloplasmina sérica baixa e doença de Wilson. A ceruloplasmina é a principal proteína carreadora de cobre no plasma e, na doença de Wilson, a falha da ATP7B em incorporar o cobre à apoceruloplasmina reduz seu nível sérico. Entre as opções, é a única doença hepática em que esse exame tem papel diagnóstico.
Doença hepática + ceruloplasmina sérica baixa = pensar em doença de Wilson → confirmar com cobre urinário de 24 horas, pesquisa de anel de Kayser-Fleischer e, se preciso, cobre hepático ou genética (ATP7B)
A ceruloplasmina é uma glicoproteína sintetizada no fígado que transporta a maior parte do cobre circulante e tem atividade de ferroxidase. Na doença de Wilson, doença autossômica recessiva causada por mutações no gene ATP7B, o hepatócito não consegue incorporar o cobre à apoceruloplasmina nem excretá-lo pela bile. A apoceruloplasmina, sem cobre, é degradada mais rápido, e o resultado é ceruloplasmina sérica baixa associada a acúmulo de cobre no fígado, no cérebro e na córnea.
Na prática, a dosagem de ceruloplasmina é o exame inicial de triagem quando há doença hepática inexplicada em jovem, alterações neuropsiquiátricas ou anel de Kayser-Fleischer. Valores abaixo de 20 mg/dL são sugestivos, e valores muito baixos (menores que 10 mg/dL) reforçam bastante a hipótese. A confirmação vem do cobre urinário de 24 horas elevado, do exame com lâmpada de fenda, do cobre hepático quantitativo e da análise genética, combinados no escore de Leipzig.
Armadilhas: a ceruloplasmina é proteína de fase aguda e pode subir com inflamação, gestação ou uso de estrogênio, mascarando a doença; por isso, um valor normal não exclui doença de Wilson, sobretudo na forma hepática ativa. Por outro lado, pode estar baixa sem doença de Wilson em heterozigotos, insuficiência hepática grave, síndrome nefrótica, desnutrição e aceruloplasminemia.
A hemocromatose hereditária é uma doença de sobrecarga de ferro, avaliada por saturação de transferrina e ferritina. A ceruloplasmina não é marcador dessa doença.
É a resposta. Na doença de Wilson, a falha da ATP7B reduz a incorporação de cobre à ceruloplasmina, que fica baixa na maioria dos pacientes e é o exame inicial de triagem.
A colangite esclerosante primária é uma doença colestática imunomediada, avaliada por fosfatase alcalina, gama-GT e colangiografia (colangiorressonância), com associação frequente a retocolite ulcerativa. A ceruloplasmina não faz parte da sua investigação.
A hepatite autoimune cursa com hipergamaglobulinemia (IgG elevada) e autoanticorpos como FAN e antimúsculo liso. A ceruloplasmina não é marcador dela, embora a doença de Wilson deva entrar no diagnóstico diferencial de hepatite em jovens.
Ceruloplasmina baixa em doença hepática remete à doença de Wilson; ferritina e saturação de transferrina remetem à hemocromatose. Lembre que ceruloplasmina normal não exclui Wilson, porque ela sobe com inflamação.
Doença hepática metabólica é o acúmulo de gordura no fígado associado a disfunção metabólica, principalmente obesidade, diabetes mellitus tipo 2, resistência insulínica, dislipidemia ou hipertensão arterial.
Para prova, o mais importante é reconhecer que não basta ver esteatose no ultrassom: é preciso pensar em risco de fibrose. O que separa o paciente benigno do paciente perigoso não é a gordura, é a fibrose hepática.
Não confunda os nomes:
Termo | Ideia |
|---|---|
Esteatose hepática | Gordura no fígado, achado de imagem ou histologia |
MASLD | Esteatose associada a pelo menos 1 fator cardiometabólico |
MASH | Esteato-hepatite metabólica, com inflamação e lesão hepatocelular |
Fibrose avançada | Principal marcador de prognóstico |
Cirrose por MASLD | Pode ocorrer mesmo com transaminases normais |
A banca costuma cobrar um adulto obeso, diabético ou dislipidêmico, assintomático, com aumento discreto de ALT e AST ou ultrassom mostrando esteatose hepática.
O padrão clássico:
paciente com síndrome metabólica;
ALT geralmente maior que AST nas fases iniciais;
transaminases normais não excluem doença relevante;
ultrassom sugere esteatose, mas não estagia fibrose;
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plaquetas baixas, AST maior que ALT, albumina baixa ou sinais de hipertensão portal sugerem doença avançada.
A palavra que entrega o diagnóstico costuma ser: obesidade, diabetes tipo 2, resistência insulínica, esteatose ao ultrassom, transaminases discretamente elevadas.
O dado que mata a questão é: o próximo passo não é biópsia em todo mundo, é estratificar fibrose, geralmente começando pelo FIB-4.
A doença nasce da resistência insulínica e do excesso de ácidos graxos chegando ao fígado. Isso leva a esteatose. Em parte dos pacientes, ocorre lipotoxicidade, estresse oxidativo, inflamação e balonização hepatocitária, caracterizando MASH.
Com inflamação crônica, o fígado deposita matriz extracelular e evolui para fibrose. A fibrose pode progredir para cirrose e carcinoma hepatocelular.
Para prova, guarde:
gordura isolada tem menor risco;
inflamação e fibrose mudam prognóstico;
fibrose avançada é o principal preditor de mortalidade hepática;
risco cardiovascular costuma ser a principal causa de morte nesses pacientes.
Assintomático.
Achado incidental de esteatose no ultrassom.
Elevação leve de aminotransferases.
Paciente com obesidade, diabetes mellitus tipo 2, hipertensão, hipertrigliceridemia ou HDL baixo.
Hepatomegalia discreta pode aparecer.
Fadiga vaga ou desconforto em hipocôndrio direito.
ALT maior que AST em doença inicial.
AST maior que ALT pode sugerir fibrose avançada ou cirrose.
Ferritina elevada pode ocorrer por inflamação metabólica, sem significar necessariamente hemocromatose.
Transaminases normais não excluem MASH nem fibrose avançada.
Sinais que devem fazer pensar em doença avançada ou outro diagnóstico associado:
plaquetopenia;
esplenomegalia;
ascite;
icterícia;
encefalopatia hepática;
albumina baixa;
INR alargado;
AST maior que ALT em paciente com suspeita de cirrose;
perda ponderal inexplicada;
consumo significativo de álcool;
hepatite viral positiva;
autoanticorpos ou imunoglobulinas muito alteradas;
sobrecarga de ferro com saturação de transferrina elevada.
O resumo continua na Easy: diagnóstico, tratamento e conduta, diagnósticos diferenciais, pegadinhas de prova, regra prática e tabela final de revisão.