
A questão cobra a abordagem laboratorial inicial da síndrome ictérica. Icterícia com colúria e acolia fecal aponta para hiperbilirrubinemia direta de padrão colestático. O primeiro passo é confirmar a fração predominante (bilirrubinas totais e frações) e o padrão colestático (fosfatase alcalina e gama-GT) para, em seguida, guiar a investigação por imagem.
Icterícia + colúria + acolia fecal = hiperbilirrubinemia direta com padrão colestático → bilirrubinas totais e frações, fosfatase alcalina e gama-GT, seguidas de ultrassonografia de abdome
Colúria é a eliminação de urina escura, cor de chá ou de coca-cola, causada pela presença de bilirrubina na urina. Só a bilirrubina direta (conjugada) aparece na urina, porque é hidrossolúvel e filtrada pelos rins. A bilirrubina indireta circula ligada à albumina e não é filtrada. Por isso a icterícia da hemólise costuma ser acolúrica, enquanto a colúria indica aumento da fração conjugada por doença hepatocelular ou colestase.
A colúria pode ser pesquisada à beira do leito pela fita reagente de urina e, de forma grosseira, pela espuma amarelada ao agitar a amostra. É preciso diferenciá-la de outras causas de urina escura, como hematúria, hemoglobinúria e mioglobinúria. Quando vem acompanhada de acolia fecal (fezes claras pela ausência de pigmentos biliares no intestino), o quadro sugere icterícia colestática, por obstrução das vias biliares ou por colestase intra-hepática intensa.
Na prática, a sequência é laboratório e depois imagem. Bilirrubinas totais e frações confirmam o predomínio da bilirrubina direta. Fosfatase alcalina e gama-GT elevadas, desproporcionalmente às transaminases, definem o padrão colestático, e a gama-GT confirma a origem hepatobiliar da fosfatase alcalina. A ultrassonografia de abdome então separa causa extra-hepática (vias biliares dilatadas) de intra-hepática. Sorologias e marcadores tumorais entram depois, conforme a hipótese.
Sorologias para hepatites virais investigam a etiologia de um padrão hepatocelular e só fazem sentido depois de caracterizado o tipo de icterícia. Não são o exame inicial para esclarecer a síndrome ictérica com sinais de colestase.
Bilirrubinas totais e frações confirmam o predomínio da fração direta. Fosfatase alcalina e gama-GT caracterizam o padrão colestático. É o conjunto inicial que orienta o passo seguinte, a imagem.
Marcadores tumorais, como CA 19-9 e CEA, são complementares e só têm papel quando já existe suspeita de neoplasia, como uma obstrução biliar documentada. Não servem para triagem e podem estar elevados na própria colestase benigna.
As transaminases avaliam lesão hepatocelular e, isoladamente, não definem o padrão colestático. O proteinograma não é exame de primeira linha na investigação da icterícia.
Hemograma e coagulograma ajudam a avaliar hemólise, infecção (colangite) e função de síntese hepática. São inespecíficos e não esclarecem o tipo de icterícia.
Colúria significa bilirrubina direta elevada, e colúria com acolia fecal sugere colestase. Comece por bilirrubinas frações, fosfatase alcalina e gama-GT e depois vá para a ultrassonografia de abdome.
Semiologia do TGI é reconhecer, pela história e pelo exame físico, o padrão que aponta para esôfago, estômago, intestino delgado, cólon, reto, fígado, vias biliares ou pâncreas. Para prova, o mais importante é transformar sintomas inespecíficos em síndromes: disfagia, dispepsia, dor abdominal, diarreia, constipação, sangramento digestivo, icterícia, ascite e síndrome consumptiva.
A banca costuma cobrar um paciente com sintoma digestivo e uma pista que muda o diagnóstico.
O dado que mata a questão geralmente é:
Sintoma | Palavra que entrega |
|---|---|
Disfagia para sólidos progressiva | Obstrução mecânica, pensar em câncer de esôfago |
Disfagia para líquidos e sólidos desde o início | Distúrbio motor, pensar em acalasia |
Odinofagia | Esofagite infecciosa, medicamentosa ou cáustica |
Pirose e regurgitação | DRGE |
Dor epigástrica em queimação | Dispepsia, doença ulcerosa ou gastrite |
Dor em hipocôndrio direito pós-prandial | Cólica biliar |
Dor epigástrica irradiada para dorso | Pancreatite aguda |
Hematêmese ou melena | Sangramento digestivo alto |
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Hematoquezia | Sangramento digestivo baixo, mas pode ser alto se instabilidade |
Diarreia com sangue, febre e tenesmo | Colite inflamatória ou infecciosa invasiva |
Diarreia volumosa, aquosa, sem sangue | Diarreia secretora ou osmótica |
Perda ponderal, anemia, disfagia, vômitos persistentes | Sinal de alarme |
Regra prática: em semiologia gastrointestinal, a questão raramente quer uma lista. Ela quer localização anatômica, gravidade e próxima conduta.
O TGI responde a agressões com poucos padrões clínicos. Obstrução gera disfagia, vômitos, distensão e parada de eliminação de gases e fezes. Inflamação gera dor, febre, diarreia, sangue ou muco. Isquemia gera dor desproporcional ao exame. Sangramento aparece como hematêmese, melena, hematoquezia ou anemia ferropriva. Má-absorção gera diarreia crônica, perda ponderal, esteatorreia e deficiência nutricional.
Para prova, localização é tudo:
Local provável | Padrão semiológico |
|---|---|
Esôfago | Disfagia, odinofagia, pirose, regurgitação |
Estômago e duodeno | Dispepsia, saciedade precoce, náuseas, vômitos, melena |
Intestino delgado | Diarreia volumosa, má-absorção, distensão, perda ponderal |
Cólon | Alteração do hábito intestinal, muco, sangue, tenesmo |
Reto e ânus | Dor evacuatória, hematoquezia viva, tenesmo, incontinência |
Fígado e vias biliares | Icterícia, colúria, acolia fecal, prurido, dor em hipocôndrio direito |
Pâncreas | Dor epigástrica irradiada para dorso, esteatorreia, emagrecimento |
Disfagia é um clássico de prova. Se começa para sólidos e progride para líquidos, pense em lesão obstrutiva, especialmente neoplasia. Se ocorre para sólidos e líquidos desde o início, pense em distúrbio motor, especialmente acalasia. Odinofagia não é sinônimo de disfagia: sugere dor ao engolir, muito associada a esofagite.
Dispepsia é dor ou desconforto epigástrico, saciedade precoce, plenitude pós-prandial, náuseas ou queimação epigástrica. A pegadinha é não chamar toda dor abdominal de dispepsia. Dispepsia é alta, epigástrica e relacionada ao estômago ou duodeno.
Sangramento digestivo alto costuma aparecer com hematêmese, vômitos em borra de café ou melena. Sangramento digestivo baixo costuma aparecer com hematoquezia. Mas hematoquezia com instabilidade hemodinâmica pode ser sangramento alto volumoso.
Diarreia inflamatória tem sangue, muco, febre, dor, tenesmo ou leucócitos fecais. Diarreia não inflamatória tende a ser aquosa, volumosa, sem sangue e sem febre alta.
Icterícia com colúria e acolia fecal sugere hiperbilirrubinemia direta, geralmente colestase ou hepatopatia. Icterícia sem colúria sugere predomínio de bilirrubina indireta, como hemólise ou síndrome de Gilbert.
Vômitos biliosos sugerem obstrução distal à papila duodenal. Vômitos não biliosos sugerem obstrução antes da papila, como estenose pilórica. Vômitos fecaloides sugerem obstrução intestinal distal ou fístula gastro-cólica.
Constipação com início recente em idoso, perda ponderal ou sangue nas fezes é sinal de alarme para câncer colorretal. Constipação crônica em jovem, sem alarme, costuma ser funcional.
Tenesmo é sensação de evacuação incompleta. Para prova, aponta para reto acometido, como retocolite, proctite, câncer retal ou disenteria.
Esteatorreia é fezes volumosas, brilhantes, fétidas, que boiam e são difíceis de limpar. Sugere má-absorção ou insuficiência pancreática exócrina.
Ascite com circulação colateral, aranhas vasculares, eritema palmar e ginecomastia sugere cirrose com hipertensão portal.
Sinais de alarme em sintomas gastrointestinais:
Red flag | Por que importa |
|---|---|
Perda ponderal involuntária | Neoplasia, doença inflamatória ou doença sistêmica |
Anemia ferropriva | Sangramento crônico, especialmente neoplasia gastrointestinal |
Disfagia progressiva | Obstrução, câncer de esôfago até prova em contrário |
Odinofagia importante | Esofagite infecciosa, cáustica ou lesão grave |
Vômitos persistentes | Obstrução, hipertensão intracraniana, distúrbio metabólico |
Hematêmese, melena ou hematoquezia | Sangramento digestivo |
Massa abdominal palpável | Neoplasia, fecaloma, aneurisma ou visceromegalia |
Febre com dor abdominal localizada | Abdome inflamatório ou infeccioso |
Dor súbita intensa | Perfuração, isquemia, pancreatite ou ruptura vascular |
Icterícia progressiva com emagrecimento | Obstrução maligna de via biliar ou neoplasia pancreática |
O resumo continua na Easy: diagnóstico, tratamento e conduta, diagnósticos diferenciais, pegadinhas de prova, regra prática e tabela final de revisão.