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Litíase biliar e doenças das vias biliares

Cirurgia›  Cirurgia Geral
ABC2023Acesso direto
Em relação à disfunção do Esfíncter de Oddi, assinale a alternativa correta.
Racional da questão

A questão cobra o quadro clínico, o diagnóstico e o tratamento da disfunção do esfíncter de Oddi. A apresentação típica é dor biliar recorrente, geralmente após colecistectomia, sem cálculo ou lesão estrutural, e pancreatite aguda recorrente na forma pancreática. Como as outras alternativas trazem erros factuais (incidência, achado de imagem, manometria e tratamento), a resposta é a letra A.

Conteúdo-Chave para Questão (CCQ)

Pós-colecistectomia + dor biliar recorrente + sem cálculo ou tumor + pancreatite aguda recorrente = disfunção do esfíncter de Oddi → manometria (pressão basal > 40 mmHg) e esfincterotomia endoscópica em casos selecionados

Análise

O esfincter de oddi é o conjunto de fibras musculares lisas que envolve a porção terminal do colédoco e do ducto pancreático na papila duodenal maior. Ele regula a saída de bile e de suco pancreático para o duodeno. Na disfunção, há obstrução intermitente ao fluxo, por estenose fibrótica ou por discinesia (hipertonia). Ocorre principalmente em mulheres e após colecistectomia, mas em uma pequena minoria dos operados.

O quadro é de dor biliar recorrente, com aminotransferases e fosfatase alcalina normais ou elevadas de forma transitória nas crises, e sem cálculo, tumor ou outra causa estrutural. Na forma pancreática, a apresentação é pancreatite aguda recorrente sem outra etiologia. O exame de referência é a manometria do esfíncter durante a CPRE: pressão basal acima de 40 mmHg confirma a hipertonia. Nos métodos de imagem com estímulo, o achado anormal é a dilatação do ducto, e não a ausência dela.

O tratamento de escolha nos casos com achados objetivos (ducto dilatado, enzimas alteradas, manometria anormal) é a esfincterotomia endoscópica. Na prova, cuidado com dois pontos. Primeiro, papilectomia e prótese metálica são para tumor de papila. Segundo, o consenso de Roma IV abandonou o antigo tipo III de Milwaukee, porque o estudo EPISOD mostrou que a esfincterotomia não supera o procedimento simulado em pacientes com dor e sem alterações objetivas.

Alternativa por alternativa
  • A
    A sintomatologia típica é a de cólica biliar com bilirrubina normal e episódios recorrentes de pancreatite aguda.

    Descreve a apresentação típica: dor do tipo cólica biliar sem hiperbilirrubinemia mantida, porque a obstrução é intermitente e incompleta. A obstrução do ducto pancreático explica os episódios de pancreatite aguda recorrente. A alternativa é a mais adequada, embora simplifique ao juntar as formas biliar e pancreática.

  • B
    Cerca de 20% dos pacientes submetidos à colecistectomia apresentarão disfunção do esfíncter de Oddi em algum momento.

    Até cerca de 20% dos colecistectomizados podem ter dor abdominal persistente (síndrome pós-colecistectomia), mas a disfunção do esfíncter de Oddi responde por uma pequena fração desses casos, com estimativas em torno de 1% dos operados.

  • C
    A ausência de dilatação do colédoco em resposta à colecistocinina (CCK) é um achado típico ao ultrassom.

    A colecistocinina normalmente relaxa o esfíncter. Por isso, a ausência de dilatação do colédoco após o estímulo é a resposta normal. O achado sugestivo de disfunção é a dilatação ductal após o estímulo, que indica obstrução ao fluxo.

  • D
    A manometria ampular revela pressão basal diminuída do esfíncter de Oddi.

    Na disfunção, a manometria mostra pressão basal elevada, acima de 40 mmHg, e não diminuída. Esse é o critério manométrico clássico de hipertonia esfincteriana.

  • E
    O tratamento consiste na papilectomia endoscópica com colocação de endoprótese autoexpansível.

    O tratamento é a esfincterotomia endoscópica em pacientes selecionados com achados objetivos. Papilectomia endoscópica e prótese autoexpansível são reservadas para neoplasias da papila e estenoses malignas, respectivamente.

Dica de prova

Na disfunção do esfíncter de Oddi, tudo está 'a mais': pressão basal elevada (> 40 mmHg) e ducto que dilata com o estímulo. O tratamento é a esfincterotomia endoscópica, e não a papilectomia.

Referências
  1. Cotton PB, Elta GH, Carter CR, Pasricha PJ, Corazziari ES. Rome IV. Gallbladder and Sphincter of Oddi Disorders. Gastroenterology. 2016;150(6):1420-1429.e2.
  2. Cotton PB, Durkalski V, Romagnuolo J, Pauls Q, Fogel E, Tarnasky P, et al. Effect of endoscopic sphincterotomy for suspected sphincter of Oddi dysfunction on pain-related disability following cholecystectomy: the EPISOD randomized clinical trial. JAMA. 2014;311(20):2101-9.
Cirurgia · Cirurgia Geral

Litíase biliar e doenças das vias biliares

1Ideia central

Litíase biliar é a presença de cálculos na vesícula ou nas vias biliares; para prova, o mais importante é separar cólica biliar, colecistite aguda, coledocolitíase, colangite aguda e pancreatite biliar, porque cada uma tem conduta diferente.

2Como cai na prova

A banca costuma trazer mulher, meia-idade, obesidade, multípara, com dor no hipocôndrio direito ou epigástrio após refeição gordurosa.

O dado que mata a questão:

  • dor episódica, sem febre e sem leucocitose: cólica biliar;

  • dor persistente maior que 6 horas, febre, leucocitose e Murphy positivo: colecistite aguda;

  • icterícia, colúria, acolia fecal e bilirrubina direta elevada: coledocolitíase;

  • febre, icterícia e dor em hipocôndrio direito: colangite aguda;

  • dor epigástrica irradiada para dorso, amilase ou lipase elevada: pancreatite aguda biliar.

A palavra que entrega o diagnóstico em prova costuma ser “Murphy”, “colúria”, “tríade de Charcot”, “via biliar dilatada” ou “cálculo no colédoco”.

3Fisiopatologia essencial

A maioria dos cálculos é de colesterol, formada por bile supersaturada, hipomotilidade da vesícula e nucleação de cristais. A obstrução intermitente do ducto cístico causa cólica biliar. A obstrução persistente causa inflamação da vesícula, levando à colecistite aguda.

Quando o cálculo migra para o colédoco, pode causar obstrução biliar extra-hepática, com icterícia colestática. Se houver infecção associada e aumento da pressão na via biliar, surge colangite aguda, que é emergência. Se o cálculo impacta transitoriamente na papila, pode obstruir o ducto pancreático e causar pancreatite biliar.

Regra de prova: cálculo parado na vesícula causa dor; cálculo no colédoco causa icterícia; cálculo infectado na via biliar causa colangite.

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4Quadro clínico

Mais cobrado

Cólica biliar:

  • dor em hipocôndrio direito ou epigástrio;

  • geralmente após refeição gordurosa;

  • duração típica menor que 6 horas;

  • sem febre;

  • sem sinais inflamatórios importantes;

  • ultrassom mostra cálculo, mas sem espessamento importante da parede.

Colecistite aguda:

  • dor persistente maior que 6 horas;

  • febre;

  • náuseas e vômitos;

  • sinal de Murphy positivo;

  • leucocitose;

  • PCR elevada;

  • ultrassom com cálculo, parede vesicular espessada, líquido perivesicular e Murphy ultrassonográfico.

Coledocolitíase:

  • icterícia;

  • colúria;

  • acolia fecal;

  • prurido;

  • padrão colestático: bilirrubina direta, fosfatase alcalina e GGT elevadas;

  • dilatação de via biliar no ultrassom.

Colangite aguda:

  • tríade de Charcot: febre, icterícia e dor em hipocôndrio direito;

  • pêntade de Reynolds: tríade de Charcot mais hipotensão e alteração do sensório;

  • emergência infecciosa obstrutiva.

Também pode cair

Pancreatite biliar:

  • dor epigástrica intensa irradiada para dorso;

  • náuseas e vômitos;

  • lipase elevada, geralmente maior que 3 vezes o limite superior da normalidade;

  • ALT maior que 150 U/L sugere etiologia biliar.

Íleo biliar:

  • obstrução intestinal mecânica em idoso;

  • história de litíase biliar;

  • fístula colecistoentérica;

  • cálculo impactado, classicamente na válvula ileocecal;

  • tríade de Rigler: pneumobilia, obstrução intestinal e cálculo ectópico.

Síndrome de Mirizzi:

  • cálculo impactado no infundíbulo da vesícula ou ducto cístico;

  • compressão extrínseca do ducto hepático comum;

  • icterícia obstrutiva;

  • pegadinha: parece coledocolitíase, mas o cálculo não está necessariamente dentro do colédoco.

Red flags

  • febre com icterícia;

  • hipotensão;

  • confusão mental;

  • lactato elevado;

  • sinais de sepse;

  • dor persistente com defesa abdominal;

  • bilirrubina muito elevada com dilatação de via biliar;

  • suspeita de colangite aguda grave.

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